Como a falta de gestão em TEA aumenta a judicialização

A judicialização do cuidado em TEA não nasce, na maioria das vezes, de má-fé entre as partes. Ela nasce do vazio de gestão, da ausência de dados confiáveis e da incapacidade das operadoras de demonstrar, de forma objetiva, que estão garantindo acesso, qualidade e efetividade terapêutica. Em 2026, esse vazio se transforma rapidamente em risco jurídico, financeiro e reputacional.


Onde nasce o conflito

O conflito começa quando o cuidado é fragmentado.
Clínicas operam com registros próprios, profissionais utilizam metodologias distintas, relatórios chegam incompletos ou atrasados e a operadora enxerga apenas autorizações, códigos e valores — nunca a jornada completa da criança.

Nesse cenário, a família percebe descontinuidade, demora, negativas mal explicadas ou ausência de critérios claros. O Judiciário, ao analisar o caso, também não encontra evidências estruturadas de governança assistencial. O resultado é previsível: decisões baseadas no risco assistencial presumido, quase sempre desfavoráveis à operadora.

A judicialização não surge porque o cuidado foi negado, mas porque não foi comprovado.


O papel da auditoria estruturada

Auditoria em TEA não pode ser apenas conferência de carga horária ou validade de guia.
Sem um modelo estruturado, ela se torna reativa, defensiva e frágil juridicamente.

Uma auditoria madura atua em três camadas:

  • Clínica: aderência a protocolos, coerência terapêutica, evolução funcional.

  • Operacional: frequência, continuidade, registro adequado e rastreabilidade.

  • Assistencial-legal: critérios claros, decisões justificadas e histórico auditável.

Quando a auditoria não dispõe dessas camadas integradas, a operadora perde o principal ativo em uma ação judicial: a narrativa técnica consistente. E sem narrativa técnica, sobra apenas o custo.


Evidência clínica como defesa jurídica

No Judiciário, opinião perde força. Evidência sustenta decisões.

Evidência clínica em TEA significa:

  • Avaliações padronizadas e comparáveis ao longo do tempo

  • Relatórios evolutivos que demonstram ganho funcional ou necessidade de ajuste

  • Registro integrado entre clínica, auditoria e operadora

  • Histórico rastreável de decisões e intervenções

Quando a operadora consegue demonstrar que acompanha, mede e ajusta o cuidado, a discussão deixa de ser “cortar ou negar” e passa a ser “qual o melhor arranjo terapêutico possível”. Isso muda completamente o peso da decisão judicial e a postura do magistrado.

Não é sobre negar direitos. É sobre provar responsabilidade assistencial.


O impacto financeiro da judicialização evitável

Cada ação judicial em TEA carrega custos diretos e invisíveis:

  • Ampliação compulsória de carga horária sem critério técnico

  • Pagamento retroativo de terapias

  • Honorários jurídicos e perícias

  • Precedentes perigosos para casos futuros

  • Desorganização da linha assistencial

Grande parte desses custos é evitável quando existe gestão integrada, auditoria estruturada e inteligência assistencial. Judicialização, na prática, é o preço pago pela ausência de governança.

Operadoras que não constroem visão sistêmica de TEA acabam financiando decisões externas sobre algo que deveria ser conduzido internamente, com técnica, dados e responsabilidade — em total alinhamento com as diretrizes regulatórias da ANS.


Conclusão

Em TEA, quem não mede, não governa.
Quem não governa, explica mal.
Quem explica mal, judicializa.

A boa notícia é que esse ciclo pode ser quebrado. Com gestão, dados e evidência clínica, a judicialização deixa de ser regra e passa a ser exceção — exatamente onde ela deveria estar.